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Como eu sempre tento enfatizar, o blockchain é o que chamamos de tecnologia de base – o que significa que ele não é um fim em si, mas simplesmente uma plataforma sobre a qual aplicativos são construídos. Por causa disso, as coisas que podemos FAZER com o blockchain acabam sendo muito mais interessantes do que simplesmente discutir o que eles SÃO. Eu já escrevi sobre como ele pode ser usado para a indústria da música e para combater fake news, bem como para otimizar as eleições e melhorar processos em clínicas e hospitais, e agora vou tentar responder a pergunta que uma amiga minha me fez há alguns dias: será que o blockchain pode fazer alguma coisa para ajudar cultivadores de rosas em regiões pobres do Equador? Ou, dito de outra maneira: o que o blockchain tem a ver com o comércio justo?

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Como a entusiasta de blockchain que sou, a minha resposta vai ser a mesma de sempre: ele provavelmente pode ajudar essas pessoas e potencialmente possui aplicações interessantes para o comércio justo. Isso não quer dizer que será necessariamente uma solução FÁCIL ou que possa ser implementada IMEDIATAMENTE, mas o potencial de mudanças a longo prazo existe. Assim, continue lendo este post para descobrir como blockchain pode ser uma ferramenta para os cultivadores de flores e para os proponentes de um sistema global de comércio mais justo.

Tornar cadeias de produção opacas mais transparentes

As cadeias de suprimento são tão longas e complexas hoje em dia que é quase impossível para os consumidores saberem de onde vêm as mercadorias que eles estão comprando, ou sob quais condições elas foram produzidas.

Mesmo se você se considera um consumidor ético e responsável, a única garantia que você pode ter de que o café que você está bebendo é orgânico ou que o chocolate que você comprou é de comércio justo e não feito usando trabalho infantil, é um selo de alguma organização que diz isso – o que é já é melhor que nada, né, mas nem sempre é o suficiente.

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Como o blockchain é basicamente uma maneira de organizar grandes quantidades de dados de maneira linear e imutável, agora é possível imaginar uma cadeia de suprimentos na qual toda a trajetória de um determinado produto possa ser visualizada, certificando-se assim a sua origem e padrões.

Se isso soa um pouco abstrato (porque, pra dizer a verdade, realmente é), deixa eu dar alguns exemplos aqui para que você entenda melhor o que essa nova tecnologiao pode fazer pelo comércio justo. A parceria da Fairfood com a Provenance, por exemplo, conduziu um projeto com o objetivo de garantir que os produtores de coco na Indonésia recebessem um preço justo por seus produtos.

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A rede de supermercados Wallmart e a IBM, por sua vez, estão desenvolvendo soluções para rastrear a produção de alimentos na China. Embora seu principal objetivo esteja relacionado à segurança alimentar, e não a garantia práticas comerciais justas, a estrutura básica é a mesma e, se essa iniciativa de fato funcionar, em breve poderemos começar a ver algumas aplicações em uma escala maior.

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Reduzir a necessidade de intermediários e assegurar um sistema de pagamento mais fácil para os  produtores

A redução no número de intermediários é uma vantagem muito citada da tecnologia blockchain, que também está presente nas iniciativas relacionadas ao comércio justo. O raciocínio nesses casos seria que a automação dos processos levaria a um menor número de agentes que capturam valor na cadeia de suprimentos, de tal maneira que restaria mais para os produtores reais.

A Bext360, por exemplo, elaborou uma idéia para tornar a indústria do café – um mercado global de US $ 100 bilhões que envolve diretamente mais de 25 milhões de pessoas, a maioria das quais em países em desenvolvimento – mais sustentáveis. Eles projetaram uma máquina que combina tecnologia de reconhecimento de imagem para avaliar os grãos trazidos pelos agricultores, determinar seu preço e pagar automaticamente a valor ao vendedor, via aplicativo móvel – eliminando assim muitos dos intermediários que poderiam reduzir o preço pago aos agricultores.

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E então, o que acontece agora?

O uso de blockchain para o comércio justo poderia, idealmente, tanto aumentar a conscientização dos consumidores quanto fortalecer a posição dos pequenos produtores, dando-lhes mais controle sobre os bens que produzem e melhorando a qualidade de vida nas nações em desenvolvimento.

As iniciativas que envolvem a convergência com a IoT (internet das coisas), nesse sentido, são particularmente promissoras. Essas são todas, é claro, ideias fantásticas, e é sempre bom ver pessoas se juntando para criar soluções que possam beneficiar os mais vulneráveis. Não podemos esquecer, no entanto, que a tecnologia do blockchain ainda está em estágio inicial, e ainda é difícil de desenvolver e usar. As pessoas precisam ser educadas e convencidas a alterar seu comportamento – pense, por exemplo, em como convencer um fazendeiro analfabeto funcional e que não tem acesso a nada mais sofisticado do que um telefone “burro”, que ele deve confiar em uma máquina para avaliar o seu produto e enviar a ele o pagamento devido através do celular.

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Ainda não temos respostas para problemas relacionados à escalabilidade e adoção, mas essas são perguntas que definitivamente precisam ser feitas. Também precisaremos pensar em como garantir que os dados registrados no blockchain sejam precisos. Enquanto os dados na cadeia não podem ser alterados, nada pode realmente garantir que o que é colocado lá é verdade. Se uma empresa está usando trabalho infantil, por exemplo, ela provavelmente não vai declarar voluntariamente que estão fazendo isso, mas simplesmente mentir e inserir informações falsas no blockchain.

Ainda temos muitos desafios para resolver e o blockchain definitivamente ainda não chegou lá, mas estou confiante de que continuaremos inovando e melhorando até que ele chegue. Tem mais alguém aí a fim de ajudar a mudar o mundo usando a tecnologia do blockchain?

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